domingo, 3 de julho de 2016

Você pensa demais!

Se existe uma frase que me intriga é... “Você pensa demais!”, sempre que alguém me diz isso, ponho-me a refletir, afinal, não é suposto que eu pense? Antes eu imaginava que era a forma que algumas pessoas tinham de me lembrar que eu deveria relaxar e viver de maneira mais leve.
Depois de analisar os fatos, caí na conta de que não é nada disso, tem a ver com o incômodo que gera em certos homens, e por vezes, algumas mulheres, que eu, ou qualquer outra mulher, pense. Quer me parecer que para muitos pensar é unicamente do macho, que ideia triste!
Sim, eu penso! Não tenciono pensar menos, acredito inclusive, que não existe um pensar demais, mas existe pensar de menos, quanto a isso não resta dúvidas. Pensar, na minha opinião, é um exercício constante, é questionar o que está posto, não aceitar tudo de pronto. Deixar-se levar pelo fácil, é cômodo, mas pensar me parece mais interessante, confesso que o tédio me consumiria se eu não fosse pensante. Concordo inteiramente com o clássico “o saber não ocupa espaço”, não ocupa mesmo!
Outra frase que me intriga bastante e que já ouvi de duas pessoas ligadas à religião é “estudar não deixa ninguém rico!”, vamos lá ver... Eu fico desconfiada, afinal, não deveriam os homens de fé estimular o gosto pelos estudos? Aparentemente, pelo menos de acordo com os indivíduos que conheci, não! Temos de um lado os que criticam quem pensa, e de outro os moços do púlpito que antes preferem que façam algo para enriquecer ao invés de estudar. Mas por quê? Ora, já imaginaram que grande perda de tempo estudar, sem contar o trabalho que lhes daria pessoas questionadoras dentro de suas igrejas?  
São tempos de retrocesso minha gente! Um crescente e assustador, retrocesso. E claro está, desnecessário mencionar, mas os que ousam pensar, serão sempre uma pedra no sapato dos que gostam de pensar pelos outros, e não falta quem queira pensar por nós, são estimados os que seguem o fluxo, prefiro ser odiada nesse caso.
Há quase dez anos, escrevi um texto sobre preconceito, uma pequena parte do referido texto cabe bem aqui “...é assim que devemos estar, tal como eles nos querem, intolerantes e seguidores do que nos ditam, se começarmos a pensar o que eles vão fazer? Eles nos querem burros!”

Nessa época eu já era uma feminista, a resistência que classifica os marginais despontou em mim muito cedo, ainda que eu não soubesse que resistia a muitas formas de dominação empreendidas pela ideologia patriarcal, ainda que eu não soubesse para o que eu estava dizendo não, era de mim questionar, é de mim questionar! Eu sou um completo fracasso para a maioria das pessoas “bem-sucedidas” que conheço, sou eu a pessoa má sucedida que não tem vintém, estou em desiquilíbrio acerca do que a sociedade capitalista e patriarcal valoriza: sou uma desempregada, estudante de Serviço Social, feminista, balzaquiana solteira que mora com a mãe, sem filhos (felizmente!), ah! E tenho um cachorro magnífico. O ponto da questão é, se eu fosse me preocupar com o que eu não sou de acordo com os padrões de normalidade estabelecidos e exigidos pela sociedade já teria ceifado minha vida com um veneno de rato qualquer. Mas eu não sou apenas marginal, vou me fazendo indiferente a tudo que dizem, por que sinto que o raso dos julgamentos das outras pessoas não é possível de captar minha essência e nem mesmo a delas, o fato é que não me importo, e vou terminar o texto sem grandes conclusões, por que posso fazer isso, todos nós podemos.